quarta-feira, 12 de novembro de 2008

CONSTRUÇÃO DE UM SENTIDO PARA O FILME DUAS VIDAS E PARA UMA ALUNA DE PSICOLOGIA


O filme traz de uma maneira bem humorada e simbolizada o processo terapêutico de um paciente que chega para consulta com defesas fortemente erguidas sem o mínimo contato entre as instâncias psíquicas. O protagonista Russ apresenta traços de caráter, tais como rigidez e super racionalidade e apresenta como queixa: estresse, “tic” e supostas alucinações. Penso que o fator desencadeante desse momento seria uma crise do ciclo vital, no caso, está na meia idade “sem mulher, sem cachorro e não é piloto”, sendo essa a avaliação do percorrido até então. Buscar a psicóloga foi uma primeira quebra de sua rigidez.
Seu mundo interno estava apagado e uma enorme resistência instaurada o que fica evidente na cena em que chega ao consultório da psicóloga e não se senta diz que quer apenas remédios e que não tem tempo para ficar louco, pois nesse momento reencontrar fragmentos de sua infância, seria o mesmo que estar louco de tão distante que ele manteve o seu mundo interno até o momento. A resistência fica evidente nas suas tentativas de mandar as lembranças embora, a forma como a pessoa resiste fala de como ela é. Penso que a psicóloga pode ser continente acolhendo a demando do paciente e firme também formando uma ligação com o mesmo e reforçando a importância de que ele voltasse, sem liberar mais remédios que o necessário para um dia. Russ logo percebe que os remédios não irão fazer mágica, pois o conhecimento traz a responsabilidade, uma vez emergido ao consciente tem que se trabalhar esse conteúdo. Começa o encontro de Russ com sua criança, inicialmente mostra no filme a dificuldade de pegar esse menino que aparece e foge sem que ele possa controlar, simbolizando a dificuldade de acessar o material inconsciente deixando evidente a demanda de trabalho em um processo terapêutico, pois o material psíquico é complicado, não sabemos o que vamos encontrar. A tarefa do analista neste momento é um trabalho preliminar, segundo Freud em seu texto “Construções em análise” (1937), é construir algo que está vivo com os fragmentos de recordação, com as associações e conduta do paciente. A função do paciente é recordar a do analista é completar o que foi esquecido. Os dois farão elaborações “per via de levare’. Na transferência o analista deve mostrar ao paciente que seus sentimentos não vêm da atualidade, estão sendo repetidos. Para que possam se transformar em lembranças, pois já sabemos que “a melhor forma de esquecer é lembrar”. Pois o paciente está atuando o material reprimido. Com Russ na chamada “chorambulância“ mostra do incômodo dele com o choro, que mais adiante fica claro na vivência com seu pai que gerou um sentimento de culpa, que permeou sua vida e bloqueando suas possibilidades de dar um livre encaminhamento a sua vida. Essa sua forma de funcionar o encaminhou a ser um profissional financeiramente bem sucedido, mas o fez se afastar de seus desejos e fixar sua atenção nas aparências, em arrumar os defeitos, revelando um vazio e na crítica excessiva com os outros se revelando autocrítico. Inicialmente quando olha para sua criança só consegue encontrar defeitos, até conseguir dar um sentido para suas vivências e olhar como um adulto para seu passado se conciliando com esse. Para acessar as vivências traumáticas realiza-se um processo doloroso, resistências, transferências foram observadas no filme, assim como lembranças encobridoras, como a da indignação com os amigos que encobria a lembrança de culpa. Já conciliado com sua criança, eliminando a resistência, encaminha de forma amistosa e acolhedora a próxima lembrança reveladora, essa sim traumática geradora de seus bloqueios e sintomas. Faz parte do processo terapêutico, olhar aquele pai como um adulto como ele hoje é; entender a ação deste e a reação dele, bem como reconhecer e ressignificar o ocorrido. A liberdade que gera se desamarrar abre novos caminhos, não que nesses novos caminhos novas dificuldades não possam surgir, mas esta construção já foi realizada, implicou desconstrução de modos cristalizados e rígidos para novas construções. Vivemos com Russ esse processo ao assistir o filme. A sensação de alívio que é transmitida ao vê-lo sorrir, ao fim do filme, com caminhos abertos e possibilidade de um futuro diferente, me faz relembrar do porque escolhi a faculdade de psicologia.

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